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Um espaço de análise econômica, antropológica e social

sábado, 10 de abril de 2010

PLANIFICANDO O CAPITALISMO EM ANGOLA

Resumo
O presente artigo visa mostrar a importância da planificação da economia angolana, através de “pólos de desenvolvimento”, com uma geografia econômica predominante nas fronteiras norte e sul do país, permitindo uma integração nacional, com forte desenvolvimento nos transportes (ferroviário, rodoviário, marítimo, fluvial, aéreo), e telecomunicações, trazendo uma maior distribuição de renda, melhorias sociais e ambientais e um desenvolvimento uniforme das varias regiões do país. Tem como referência o modelo de desenvolvimento econômico, do economista Alfred Marshall.
Palavras chaves: Economia Planificada; Economia Capitalista; Indústria Motriz.

Introdução
Após a segunda guerra mundial, a guerra fria que se instalou provocou a polarização do mundo, e antes as economias centralizadas passaram gradualmente a uma economia do mercado com livre concorrência. Assim, a idéia da globalização e as metas de desenvolvimento dos países, passaram a comandar as políticas econômicas. Porém com a recente crise financeira que afetou a economia mundial, com repercussão na esfera social e ambiental, trouxe à tona as fragilidades do sistema econômico capitalista atual, e provocou um novo debate, (que algum tempo estava adormecido) sobre o antagonismo entre a economia centralizada planificada, e a economia capitalista.

Modelo de Desenvolvimento de Alfred Marshall
A primeira revolução industrial provocou um aglomerado de indústrias têxteis em volta de Manchester, cuja complexidade provocou a curiosidade de Marshall. Além da Inglaterra, muitos outros países desenvolvidos apresentam fortes aglomerados industriais em uma só região tendo uma ou duas indústrias motrizes. Quanto a este tipo de disposição geográfica das indústrias cabe a historia e ao acaso, e sobre tudo a antropologia responder. Marshall na sua analise, divide as economias das empresas aglomeradas em duas categorias: as que dependem do desenvolvimento geral da indústria motriz, que ele denomina de “economias externas”, e as que dependem dos recursos das empresas, da eficiência de sua administração, que denominou de “economias internas”. Ele Apontou algumas vantagens dos aglomerados industriais como:
• Amplo mercado para os especialistas, o que proporciona alguma segurança contra o desemprego, e escassez de mão-de-obra para as empresas.
• Permite um fluxo continuo de fornecimento de matéria prima e serviços.
• Promove troca de informações provocando progresso tecnológico.
“Os segredos da profissão deixam de ser segredos, e, por assim dizer, ficam soltos no ar...... se um lança uma idéia nova, ela é imediatamente adotada por outros, que a combinam com sugestões próprias e, assim, essa idéia se torna uma fonte de outras idéias novas. Acabam por surgir, nas proximidades desse local, atividades subsidiárias que fornecem à indústria principal instrumentos e matérias primas, organizam seu comércio e, por muitos meios, lhe proporcionam economia de material. (MARSHALL, 1988, p 266). Para Marshall, um aumento geral de produção da empresa motriz, provocaria um aumento do seu tamanho, produziria a custos menores, aumentaria a produtividade, resultando sempre em um aumento das economias externas.

O papel do Estado na Economia Angolana
As políticas econômicas liberais, especialmente de abertura da economia para o comercio internacional, tem estrangulado o mercado interno de muitos países africanos e da America Latina impedindo que eles se industrializem, porque os produtos de fora especialmente os da China ficam mais baratos do que se produzidos internamente. Assim é necessário que esses países, planifiquem as suas economias para um desenvolvimento sustentável. Cabe ao Estado, através de um planejamento integrado, coordenar as políticas econômicas necessárias para garantir a industrialização.
As políticas econômicas não são fechadas e paradigmáticas. Quando implementadas na sociedade têm particularidades em função da sua cultura, historia, e antropologia. Não gostaria de dar uma receita pronta para o desenvolvimento sustentável em Angola, mas tendo como referencial teórico a do desenvolvimento econômico de Marshall, e roubando um pouco as teorias de Shumpeter sobre o empresário inovador e relações insumo-produto procurarei desenvolver uma política econômica para a Angola. No nosso país, o desenvolvimento sustentável deve partir dos pólos industriais. Um pólo industrial é um aglomerado de empresas, ligadas por relações de insumo-produto, liderado por uma ou mais indústrias motrizes. Uma indústria motriz é um conjunto de empresas do mesmo ramo de atividade, que possui um efeito de encadeamento alto, capaz de provocar transformações estruturais na sociedade. Quanto maior for o seu nível de produção, maior será o emprego, investimento, e a renda per capita da região em que ela está inserida. Assim como o capital atrai capital, as indústrias motrizes atraem as empresas satélites, que fornecem ou compram os seus insumos.
A criação de um pólo industrial no sul do país, e outro no norte, provocarão mudanças estruturais significativas em Angola. Elas deverão estar voltadas para o mercado nacional, e quando necessário para a exportação. Fazendo um breve estudo da potencialidade regional do pólo sudeste, as indústrias motrizes poderão ser as de laticínio, agroindústria alimentar, siderúrgica, sem falar das indústrias mineradoras. Para o pólo norte as indústrias motrizes poderão ser as de petroquímica, alimentar, têxtil, e metalúrgica. Não deixando de potencializar o cultivo do café e algodão. No centro faz-se potencializar a agricultura e urbanismo. As empresas satélites seriam as fornecedoras de insumo e serviços para o processo produtivo das indústrias motrizes. Elas poderiam ser: empresas de papel, plástico, tintas, metal mecânico, telecomunicações restaurantes redes hoteleiras, e outras médias e pequenas empresas necessárias para satisfazer as necessidades das empresas motrizes, de outras empresas do aglomerado, e da população existente na região. Elas estariam interligadas uma as outras de forma vertical (quando as relações entre as empresas ocorrem antes do processo produtivo, ex: fornecedores de matérias primas) e horizontal (quando as relações entre as empresas ocorrem depois do processo produtivo ex:distribuição dos produtos acabados). Um aumento da produção de uma empresa motriz provocaria um efeito multiplicador positivo nas varias outras empresas. Estas industrias motrizes, em função da sua importância deverá ser estatal, ou de capital social misto.
O Estado além de traçar estas linhas mestras, tem como tarefa central criar infra-estrutura nacional, construindo estradas entre e nas provinciais, ferrovias, portos, aeroportos, abrindo canais de navegação nos rios, e criar incentivos fiscais para o empresariado nacional em alguns setores da economia. Na sua política com as empresas estrangeiras interessadas e investir no país, o Estado deverá procurar ter maior participação no capital social. Ao arrecadar as receitas nestes pólos industriais o Estado devera repassar algum percentual das verbas na região local, para serem criadas políticas sociais e acima de tudo ambientais, para que o desenvolvimento seja sustentável. A gestão eficiente destes pólos industriais é de crucial importância para a manutenção do desenvolvimento. Para Schumpeter esta manutenção vem das empresas que apresentam inovações radicais, por meio de inovação tecnológica, novas combinações de meios de produção, abertura de novos mercados, ou mudanças profundas nos métodos gerenciais. Essas inovações geram produtos de melhor qualidade, a menor preço, e por gozarem de economia de escala os seus custos são reduzidos, quando aumenta o volume de produção. O pólo industrial que mais inovações radicais apresentar mais forte se tornará, e obterá maiores lucros. Estas inovações quando implementadas causará certo desequilíbrio na economia, e será uma alavanca para inovações radicais dos demais pólos industriais. Assim a economia se desenvolverá por momentos de equilíbrios e desequilíbrios.
Com os pólos formados, o efeito multiplicador será considerável. Haverá integração nacional, criação de grandes centros urbanos, de novos postos de trabalho, maior distribuição de renda, as telecomunicações estarão presentes em todo o território nacional, resolvendo assim alguns problemas sociais. A distribuição espacial das universidades deverá ser em função das potencialidades dos pólos industriais, possibilitando o binômio universidade-empresa. Só para citar alguns exemplos, haverá uma forte universidade de química, no pólo da indústria petroquímica, uma universidade de geologia e minas no pólo onde a indústria extrativa é forte, e nos grandes centros urbanos terá uma predominância de universidades com cursos das ciências sociais, saúde, e artes.

Conclusão
A grande vantagem que temos em relação a algumas economias desenvolvidas é que nelas, alguns dos seus pólos industriais surgiram sem fortes planificações do Estado, encontrando-se às vezes mal situada em suas estratégias de exportação. Cabe ao estado fazer a sua Historia econômica, por planificar a economia capitalista em Angola, criando pólos industriais com forte integração vertical e horizontal entre as empresas, trazendo para o país um desenvolvimento sustentável a muito almejado.

3 comentários:

shark Silva disse...

uma indústria petroquímica nao tem de ser instalada necessariamente numa area geografica dominada pela exploração de petróleo, poderia ate mesmo ser no Kuando Kubango. la onde os recursos naturais escasseam

Flazovio disse...

De um modo geral, as indústrias se instalam em regiões que apresentam uma ou mais potencialidades favoraveis, tais como matéria prima, mão de obra especializada, ou junto de outras empresas ja existentes para facilitar a sua matriz insumo- produto. Assim o norte do país(nao necessariamente Cabinda ou Zaire podendo ser o Uige, o norte do Bengo ou de Malanje ) apresentam maiores potencialidades na instalação de uma indústria petroquimica em relação a Kuando Kuango.

Avelino Euclides Da Silva Chimbulo disse...

Antes de tudo gostaria de parabenizar o meu companheiro Flávio pelo paper desenvolvido, cheio de intenções e bastante colorido a princípio, porém, com algumas sérias implicações e lacunas que eu quero chamar aqui a atenção:

- Primeiramente, começamos pelo desenvolvimento do texto. O título, no meu ponto de vista, meio controverso "planificando o capitalismo em Angola" carrega em si um peso tremendo, cheio de ambiguidades na medida em que você não define se deve-se planificar a economia Angolana como um todo assumindo uma ideologia política, ou se o que estás propondo é uma "liberdade econômica socialista", conforme afirmava o economista Alec Nove, pois é inseparável a política econômica da economia política.

- Com relação a teoria de Marshall me perece, até certo ponto, contraditória e implicante a forma como tu desenvolves a a tua política econômica.No texto são ignorados uma série de atributos fundamentais como a existência de uma identidade sociocultural crucial para a efetivação destas teorias, ou seja, tem-se a impressão que as bases macro empresariais e macro estatais ja estão criadas e são eficientes, pelo que neste contexto os estudos empíricos mostram o contrário.

- Para terminar quero salientar que antes de qualquer planificação ou proposta de política é imprescindível fazer um diagnóstico profundo nacional e suas implicações a nível internacional, de modos a elaborar o melhor prognóstico possível. Não podemos simplesmente ignorar tais ações ou o modus operandi da sociedade em que vivemos, seria como fazer um delicioso "chá de camomila" com água "impura", portanto, nem preciso cogitar qual seria o resultado.

Avelino Euclides